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Alimentação saudável para pessoas idosas

O ato de comer não está somente ligado as necessidades biológicas. O cuidador de idosos deve ter consciência que os idosos comem não somente por que têm fome. Fatores como sabor e consistência dos alimentos, condições emocionais, clima, fatores sócio econômicos, dentre outros influenciam nossa alimentação de forma positiva ou negativa.

Uma alimentação adequada mantém sempre os mesmos fundamentos básicos, mas, em cada fase da vida, temos de tomar alguns cuidados específicos. Assim, quando falamos de alimentação para pessoas idosas, o cuidador de idoso deve considerar as alterações que ocorrem no organismo nessa fase da vida, bem como as mudanças em seu estilo de vida.

A ausência parcial ou total de dentes, o uso de dentaduras ou pontes inadequadas, a presença de cáries e a diminuição da saliva são fatores que, em geral, dificultam a mastigação e a deglutição (engolir os alimentos), podendo fazer com que o idoso mude seus hábitos alimentares (menor consumo de carnes, frutas, verduras e legumes crus para facilitar a mastigação). Isso pode ser ainda mais importante quando a pessoa apresenta limitações físicas que a impedem de sair para comprar os próprios alimentos.

Com o passar da idade ocorre a redução natural de nosso metabolismo o que induz a uma menor necessidade de calorias diárias. O cuidador do idoso deve estar ciente de que as mudanças fisiológicas que interferem no estado nutricional do idoso são: diminuição do metabolismo basal, redistribuição da massa corporal, alterações no funcionamento digestivo, alterações na percepção sensorial e diminuição da sensibilidade à sede. Com exceção das duas primeiras, todas as outras podem interferir, diretamente, no consumo alimentar1, 2.

Com relação ao sabor dos alimentos, o gosto tem sua base anatômica no número de gemas gustativas das papilas linguais. Nos jovens, este número corresponde a mais de 250 para cada papila, enquanto as pessoas acima de 70 anos têm menos de 100. Com isso, o idoso apresenta dificuldade para detectar o sabor doce dos alimentos o que o predispõe a adoçar mais os alimentos2, comportamento similar ocorre com relação ao sabor salgado. Isto ocasiona riscos de desenvolvimento de diabetes e de hipertensão arterial. O idoso tende a concentrar o tempero dos alimentos para ajustá-lo ao paladar, que está alterado.

Modificações intestinais também são observadas no indivíduo idoso, ocorrendo certo grau de atrofia na mucosa e no revestimento muscular que resulta na deficiência de absorção de nutrientes e favorece a instalação de diverticulose, em virtude da menor motilidade no intestino grosso e cólon2, 3, 4. Essas alterações na motilidade também contribuem para o aparecimento da constipação, que é freqüente na geriatria.

Associado às alterações decorrentes do envelhecimento, é freqüente o uso de múltiplos medicamentos os quais influenciam na ingestão de alimentos, na digestão, na absorção e na utilização de diversos nutrientes, o que pode comprometer o estado de saúde e a necessidade nutricional do indivíduo idoso5, 6.

Nesse sentido, várias pesquisas 7, 8, 9, 10, 11 têm demonstrado deficiência de energia, vitaminas e minerais em pessoas, acima de 65 anos, que residem em asilos ou domicílios, fato atribuído aos fatores socioeconômicos e às doenças presentes, além de alterações no modo de vida e nos hábitos alimentares.

Roque et al em pesquisa com 30 idosas institucionalizadas, constatou presença significativa de fatores ambientais, cognitivos e comportamentais ligados à alimentação que podem oferecer risco à deglutição.

O próprio sedentarismo associado à menor ingestão alimentar e a outras mudanças ligadas ao envelhecimento, tais como menor motilidade e absorção intestinal, alteração do metabolismo de glicídios, cálcio, ferro, micronutrientes, podem determinar desnutrição ou, pelo menos, déficit vitamínico ou mineral13.

De forma geral, os alimentos fornecem todos os nutrientes necessários ao bom funcionamento do corpo. Os nutrientes podem ser divididos em:

  • orgânicos (que sofrem digestão): carboidratos, proteínas e gorduras
  • inorgânicos (que não sofrem digestão: água, vitaminas, sais minerais e fibras.

Os alimentos são classificados em três grandes grupos, de acordo com a quantidade de nutrientes que possuem e a função que exercem14:

OS ALIMENTOS ENERGÉTICOS têm a função de fornecer energia (combustível) para que possamos andar, falar, respirar etc. Eles possuem grandes quantidades de carboidratos e gorduras e, quando a energia que fornecem não é consumida, ela se acumula na forma de gordura corporal. Assim, esses alimentos não devem ser consumidos em excesso, pois podem levar à obesidade ou a outros problemas de saúde, como obesidade e aterosclerose.

Os alimentos ricos em carboidratos são:

a) Cereais e derivados: arroz, milho, farinhas (aveia, trigo, centeio, fubá), massas de macarrão, pizza, pães, biscoitos, bolachas, torradas.
b) Feculentos e derivados: batata-inglesa, batata-doce, cará, inhame, mandioca, polvilho, fécula de batata, farinha de mandioca.
c) Açúcares e doces: açúcar refinado, açúcar mascavo, doces em pasta, balas, sorvetes, chocolates, refrigerantes, mel.
Os alimentos ricos em gorduras são:
a) De origem vegetal: óleos vegetais, azeites, margarinas, amendoim, castanha de caju, nozes, amêndoas, polpa do coco, abacate, açaí.
b) De origem animal: manteiga, banha, bacon, creme de leite, carnes gordas.
c) Algumas preparações: maionese, chantili, molho rosé, molho tártaro.

OS ALIMENTOS CONSTRUTORES têm a função de fornecer substâncias para a construção e manutenção das diversas partes do organismo e repor as que são diariamente perdidas pelo suor, pela descamação da pele e quando é necessário cicatrizar algum ferimento. Eles possuem grandes quantidades de proteínas, cálcio e ferro.

  • Os alimentos ricos em proteínas podem ter origem animal (carnes de todos os tipos, vísceras, ovos, leites, queijos, iogurtes, coalhadas) ou vegetal (feijões de todos os tipos, soja, lentilha, grão-de-bico, ervilha seca).
  • Os alimentos ricos em cálcio são representados por leite, queijos, iogurtes e coalhada.
  • Os alimentos ricos em ferro são as carnes, vísceras (fígado, rins) e leguminosas secas.

OS ALIMENTOS REGULADORES têm várias funções no organismo, como:

1. Aumentar a resistência às infecções.
2. Proteger a pele, a visão e os dentes.
3. Contribuir para o bom funcionamento intestinal.
4. Facilitar a digestão e o aproveitamento dos alimentos.

Esses alimentos são ricos em vitaminas, minerais e fibras e são representados por:

a) Frutas: laranja (com bagaço), abacaxi, melancia, melão, limão, mexerica, morango, goiaba, manga, frutas secas (uva-passa, ameixa seca), sempre que possível com casca.
b) Hortaliças:

Verduras: agrião, alface, repolho, couve, escarola, espinafre, brócolis, almeirão, rúcula, vagem (todos crus, quando possível).

Legumes: pepino, pimentão, berinjela, jiló, abobrinha, chuchu, cenoura (sempre que possível crus e com casca).

Algumas vitaminas podem ser destruídas com o cozimento das verduras e dos legumes, portanto esses alimentos devem ser consumidos de preferência crus. Quando for necessário refogá-los, fazê-lo em fogo baixo, panela tampada, sem adição de água e em tempo adequado.

c) Cereais integrais e derivados (fornecem vitaminas, minerais e fibras em maior quantidade do que seus correspondentes refinados): arroz integral, aveia, pão de trigo integral, biscoitos integrais, gérmen de trigo.

A água é o principal componente do organismo; está em todos os líquidos e células do corpo humano, transporta os nutrientes e lubrifica as articulações. É encontrada na forma pura, em preparações líquidas (sucos e chás) e na maioria dos alimentos. Apesar de ser um nutriente importantíssimo na alimentação dos idosos, eles costumam ingeri-la em pouca quantidade, alegando: "Não sinto sede" ou "Não me lembro de beber água". Recomenda-se o consumo de seis a oito copos de água ou líquidos (chás, sucos) por dia14.

A alimentação saudável deve fornecer energia (calorias) e nutrientes em quantidade suficiente para o bom funcionamento do organismo, o que varia de pessoa para pessoa, de acordo com o sexo, a idade, o peso, a altura, a atividade física ou a presença de doenças14.

Desta forma, vamos apresentar para você OITO PASSOS para uma alimentação saudável para pessoas idosas, que são orientações práticas sobre alimentação saudável.

1º PASSO: faça pelo de três a seis refeições por dia. Não pule as refeições!
Ingira a maior quantidade de alimentos e de calorias no período da manhã, deixando assim, o café da manhã e o almoço como as refeições mais completas do dia, conforme demonstra o esquema abaixo:

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2º PASSO: Aprecie a sua refeição, coma devagar, mastigando bem e saboreando os alimentos.
3º PASSO: coma diariamente legumes e verduras como parte das refeições e três porções ou mais de frutas nas sobremesas e lanches.

  • Frutas, legumes e verduras são ricos em vitaminas, minerais e fibras, e devem estar presentes diariamente em todas as refeições e lanches, pois evitam a prisão de ventre, contribuem para proteger a saúde e diminuir o risco de várias doenças.
  • Varie os tipos de frutas, legumes e verduras consumidos durante a semana. Procure combinar verduras e legumes de maneira que o prato fique colorido, garantindo, assim, diferentes nutrientes. Sucos naturais de fruta feitos na hora são os melhores; a polpa congelada perde alguns nutrientes, mas ainda é uma opção melhor que os sucos artificiais, em pó ou em caixinha.

4º PASSO: consuma diariamente três porções de leite e derivados e uma porção de carnes, aves, peixes ou ovos.
Retirar a gordura aparente das carnes e a pele das aves antes da preparação torna esses alimentos mais saudáveis!

  • Leite e derivados são as principais fontes de cálcio na alimentação e você pode escolher os desnatados ou semidesnatados.
  • Carnes, aves, peixes e ovos também fazem parte de uma alimentação nutritiva e contribuem para a saúde. Todos são fontes de proteínas, vitaminas e minerais.

Caso você tenha dificuldade de mastigar os alimentos sólidos, como carnes, frutas e legumes, estes alimentos podem ser servidos picados, ralados, amassados, desfiados, moídos ou batidos no liquidificador. Não deixe de comer esses alimentos.

5º PASSO: consuma, no máximo, uma porção por dia de óleos vegetais, azeite, manteiga ou margarina.

  • Prepare os alimentos de forma a usar pouca quantidade de óleo, como assados, cozidos, ensopados e grelhados. Evite cozinhar com margarina, gordura vegetal ou manteiga.

6º PASSO: evite refrigerantes e sucos industrializados, bolos, biscoitos doces e recheados, sobremesas doces e outras guloseimas como regra da alimentação.
7º PASSO: diminua a quantidade de sal na comida e retire o saleiro da mesa.

  • Para temperar e valorizar o sabor natural dos alimentos utilize temperos como cheiro verde, alho, cebola e ervas frescas e secas ou suco de frutas, como limão.

8º PASSO: beba pelo menos dois litros (seis a oito copos) de água por dia. Dê preferência ao consumo de água nos intervalos das refeições.

  • A água é muito importante para o bom funcionamento do organismo. O intestino funciona melhor, a boca se mantém mais úmida e o corpo mais hidratado. Use água tratada, fervida ou filtrada para beber e preparar refeições e sucos. Bebidas açucaradas como refrigerantes e sucos industrializados não devem substituir a água.

Referências Bibliográficas

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